quinta-feira, 28 de julho de 2022

O BRASIL LIDO NA TEORIA DO FUTEBOL EM " JOGO DE BOLA",DE CHICO BUARQUE.  

Luis Eduardo Veloso Garcia ´/ ARQUIBANCADA 

Não é novidade o envolvimento do genial compositor (e torcedor do Fluminense) Chico Buarque com o futebol, desde sua torcida fervorosa pelo Fluminense (“é muito fácil ser rubro-negro. Fácil de mais […] mas torcer pelo Fluminense, modéstia à parte, requer outros talentos”) até suas lendárias peladas com o time que é um dos donos e fundadores, o Polytheama (cujo hino, composto pelo próprio Chico, diz claramente: “O teu pavilhão/ Trêmula sempre de emoção/ Ostenta o galhardão/ De clube sempre campeão”).

Em suas produções artísticas, esse esporte também se faz presente, como é o caso das canções “O Futebol” (gravada 1989 com uma grande homenagem ao seu maior ídolo: Pagão) e “Ilmo Ciro Monteiro” (em que responde ao amigo que deu para a sua filha Silvia uma camisa do Flamengo de presente), ou das crônicas que produziu no decorrer da carreira encomendadas por jornais (entre essas encomendas, relembro as crônicas escritas diretas da França na Copa do Mundo de 1998 a trabalho dos periódicos O Globo e O Estado de São Paulo).

Neste texto, trago para uma observação mais detalhada a canção “Jogo de bola”, que se encontra no último disco de inéditas lançado pelo artista em 2017, Caravanas, e que consegue, através de sua letra e estrutura musical, trazer uma síntese de ideias que Chico Buarque sempre defendeu sobre o valor do futebol como um reflexo de nossa identidade nacional.

Chico Buarque, torcedor do Fluminense. Foto: Reprodução.

Pensar o futebol em nosso país, assim como pensar o samba, é entender que nossa formação social é feita inteiramente no conflito das relações entre o colonizado e o colonizador, nas quais qualquer tentativa de se apegar a um ideal limitado de “pureza formal” acaba por se apresentar mesquinho e reducionista.

Chico é partidário deste raciocínio de nossa formação cultural através do confronto do colonizado que descobre brechas na imposição do colonizador e, por isso, se encontra irmanado por concepções como a “antropofagia” modernista trazida por Oswald de Andrade, o “entre-lugar no discurso latino americano” de Silviano Santiago e o entendimento de cultura “amálgama” de Jorge Mautner.

Na canção “Jogo de bola”, ele coloca a prova esse raciocínio, tanto nas escolhas vistas na letra que defenderá o futebol dos “donos da bola” (o colonizado) contra os “donos do campo” (o colonizador), quanto nos caminhos do arranjo musical feito por Luiz Claudio Ramos, no qual se acompanha toda a formação e evolução do samba. É através do futebol e do samba, portanto, que ele busca ler nossa identidade nacional, trazendo o paralelo simbólico dessas duas expressões artísticas.

Para a compreensão da letra, torna-se necessário retomarmos a perspectiva apresentada por Chico Buarque em uma das crônicas escritas em seu período de produção para os jornais O Globo e O Estado de São Paulo na Copa do Mundo da França em 1998, “O Moleque e a Bola”, pois é nesse texto que ele traz a teoria sobre o conflito entre o “dono do campo” e “dono da bola”. Trago um trecho que colabora no entendimento:

penso que não seria difícil distinguir o país rico do país pobre [dentro do campo de futebol]. Os pobres são os folgados, os esbanjadores, os exibicionistas, matam a bola no peito, a bola gruda ali que nem uma goma e o locutor francês faz “ôôôôô, bien joué, magnifique!”. Ou, como diz o locutor brasileiro, eles têm intimidade com a bolaDe fato controlam, protegem, escondem, carregam a bola para cima e para baixo, e em vez de intimidade, talvez tenham ciúmes dela. Já os ricos são alunos de outra escola, uma escola prática. Recebem a bola e um-dois, tocam, recebem, desprendem-se dela, não fazem questão dela, correm soltos por toda parte. Parecem conhecer e ocupar melhor o espaço de jogo, podendo se dizer que têm intimidade com o campo. Assim, quando se enfrentam países ricos e países pobres […] estão se enfrentando os donos do campo e os donos da bola. (BUARQUE, 1998, online)

Os “donos do campo” representam, então, os colonizadores, que precisam dominar e ter o controle dos espaços em que se encontram, transformando tudo em uma lógica mercadológica na qual somente o resultado importa. Os “donos da bola” são os que sobrevivem na brecha, abrindo espaços pela força individual através da resistência e capacidade de encontrar outros caminhos diferentes para se fazer vivo no conflito.

Chico elucida no futebol brasileiro essa leitura do modo de jogar do moleque que brinca na rua e sua individualidade na busca do drible como forma de vencer o adversário, pensando-se como um dono da bola mais do que dono do campo (que já vem dominado pelo outro antes da partida começar).

Como nos fala Fernando Calazans em reportagem para O Globo de junho de 2004, “Chico rejeita a jogada mais simples. Aprecia a firula, a graça, o rebuscamento, o drible de corpo”. Nas palavras do próprio Chico Buarque em depoimento para o livro Futebol-Arte, A cultura e o jeito brasileiro de jogar, “o que conta mesmo é a bola e o moleque, o moleque e a bola […] o campo oficial às vezes não passa de um retângulo chato”.

É dessa ideia, portanto, que Chico parte na canção “Jogo de bola”, encontrando os paralelos teóricos não só da “antropofagia” de Oswald, do “entre-lugar” de Santiago, e do “amálgama” de Mautner, mas, também, da concepção do “futebol de poesia” X “futebol de prosa” de Pasolini, e do modo de jogar do brasileiro com os movimentos de danças e as gingas da capoeira que fala Gilberto Freyre no prefácio de O Negro no Futebol Brasileiro.

“Há que levar um drible”, perder a batalha da racionalidade mercadológica imposta pelos donos do campo, mas “sem perder a linha”. Para se defender, “há que puxar um samba”, aquela criação antropofágica inteiramente nossa feita nas brechas dos donos do campo.

Para se defender, “salve o futebol / salve a filosofia de botequim / salve o jogar bonito”, sem se dobrar aos donos do campo e seu “toque, o tique-taque, o pique, o breque”. A vitória nossa, como colonizados que se afirmam identitariamente nas brechas do sistema que os colonizadores nos obrigaram a aceitar (e que não é quebrado em uma sociedade capitalista como a que vivemos) está no drible do moleque, na coragem dele de “rolar as bolas nos pés” sem se preocupar com o domínio do campo, mas sim na sua afirmação como indivíduo.

“Ver rolar a pelota nos pés de um moleque / É ver o próprio tempo num relance / E sorrir por dentro”. “Ver rolar a pelota nos pés de um moleque” é ver toda a nossa formação cultural de identidade construída na batalha do colonizado que busca se afirmar contra a imposição do colonizador. “Sorrir por dentro” é se reconhecer.

Quando compramos o moralismo do discurso do futebol “europeizado” de que somente a tática importa para o caminho da vitória anulamos a poesia que nos forma, anulamos o que nos diz a individualidade de um Garrincha e, também, de outros jogadores que vieram de países que passaram pelo mesmo processo de colonização, como o caso da Argentina de Messi (o Barcelona impõe o pensamento tático dos donos da bola dos colonizadores espanhóis, mas é na individualidade dele que o jogo ganha sua força simbólica além dos próprios resultados).

A reflexão entre torcer pelo “abusado que dribla” ou o “sério que bate” pode trazer condensado mais de 500 anos de colonização e discursos impostos para uma população com tamanha força que dificulta o nosso próprio modo de nos reconhecer.

Nas escolhas do arranjo musical, necessitamos atentar para os versos “Há que puxar um samba / Sacar o samba lá do labirinto da tua cachola”, pois ele nos induz para o paralelo que o ritmo em questão pode carregar com o futebol com a percepção do que seria a formação de nossa identidade.

Luiz Claudio Ramos, eterno arranjador de Chico Buarque, se preocupa com este dado e traz no decorrer da construção rítmica da canção toda a evolução deste ritmo legitimamente nacional, desde sua origem no choro até sua última grande transformação, a bossa nova.

Chico Buarque, em Caravanas. Foto: Leo Aversa/Divulgação.

Na primeira passagem da música, vemos ela iniciar somente com um violão, que é a base de toda nossa canção popular, incluindo o samba e, principalmente, o início dela na modinha – como teoriza José Ramos Tinhorão.

A levada escolhida para este violão solo que abre a faixa é o choro que, como se sabe, carrega uma leitura completa da relação de colonizado e colonizador. Segundo Mauricio Carrilho, um dos maiores estudiosos desse gênero musical, ele nasce como uma variação rítmica que ocorre naturalmente nas levadas dos negros escravizados que eram obrigados a tocar as valsas, polcas e schottisch europeus pelos patrões para que pudessem ser revendidos mais caros. A imposição dos donos do campo para a música que deveria ser tocada levou um drible através da síncope, na qual nascerá o choro e o maxixe (que será lembrado na canção mais a frente).

No verso “há que puxar um samba” nessa primeira passagem da música temos a entrada do baixo, que tem importância fundamental na evolução do gênero discutido, pois é através dele que vemos os contrapontos dos violões, principalmente de 7 cordas, que irão se tornar a base mais consistente do samba, principalmente por causa de nomes revolucionários como Dino 7 Cordas.

A entrada da bateria na terceira estrofe dessa primeira passagem completa o caminho da evolução do choro até o samba, pois é no terreiro de Tia Ciata que Donga compõem o que é considerado o primeiro samba da nossa história, “Pelo Telefone”, em 1917, através da mistura do elemento percussivo dos batuques da religião africana com a instrumentação do choro.

Como discorrem os principais teóricos do gênero, na frente da casa de Tia Ciata ficavam os músicos de choro que eram mais aceitos pela força policial do Rio de Janeiro da época, enquanto no fundo, mais precisamente no terreiro, ocorriam os rituais religiosos de origem africana. No espaço da cozinha ocorria o encontro dos dois mundos. No espaço da cozinha se fez o amálgama que deu no nascimento do samba.

A segunda passagem do samba abre com um piano solo tocando levadas rítmicas do maxixe (ou tango brasileiro, como ficou conhecido por Ernesto Nazareth). Esse instrumento colaborou para um salto significativo da aceitação do ritmo pela classe dos donos do campo, se tornando uma brecha na mão dos brancos que se tornaram os primeiros a executá-lo, como é o caso de Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth.

No verso “mulher que lhe deu o fora” desta segunda passagem temos a entrada da flauta retomando a melodia inicial da música “Flor Amorosa”, de Joaquim Calado. Segundo alguns historiadores como o já citado José Ramos Tinhorão e Batista Siqueira, o choro teria nascido da junção da flauta aos violões e cavacos tocados pelos negros e, por isso, muitos consideram “Flor Amorosa”, do flautista Joaquim Calado, como o primeiro choro da história.

A entrada da flauta e do saxofone em contraponto na segunda estrofe dessa passagem remete-se a importância da dupla feita por Pixinguinha e Benedito Lacerda, cujas noções rítmicas apresentadas pelos dois nas gravações que fizeram são consideradas bases fundamentais não só do choro mas, também, dos caminhos de arranjos que o samba segue até hoje.

Na terceira estrofe da segunda passagem, o que temos é um arranjo de orquestra de sopro fazendo referências aos grandes grupos e o samba de gafieira, referências que remetem o momento em que o samba acaba sendo aceito como elemento de nacionalidade e vendido, inclusive, como esse objeto de nossa identidade pelo governo da época, que usa a Rádio Nacional para cumprir essa impulsão do gênero. Novamente, vemos os donos do campo tentando controlar as criações que vem dos donos da bola sem perceber o que escapava nessa brecha.

Por fim, ouvimos a entrada da bossa nova, considerada a última grande evolução rítmica do samba, quando este, em um processo antropofágico, come da cultura do jazz americano e a soma ao samba pelas mãos de João Gilberto e sua levada digna de um Garrincha. O ritmo em questão entra no verso “Da guria que antes do apito final vai sem aviso embora”, trazendo referência na letra e na melodia a “Garota de Ipanema”, a bossa nova mais famosa de todos os tempos.

Seja pelos caminhos do arranjo construído na mão do craque Luiz Claudio Ramos ou pelas escolhas teóricas da letra, o que temos na criação de Chico Buarque é a essência de um discurso que leva em consideração o olhar para nós mesmos como identidade que se forma inteiramente no conflito, na resistência diante dos discursos e ordens que nos são impostas diariamente pelos donos do campo com o intuito de anular, cada vez mais, a voz do craque que defende a sua bola como se defendesse a vida. É pela defesa da posse da bola que defendemos quem somos, e negar isso é dar voz para quem quer nos gentrificar a um discurso futebolístico que somente a tática e o resultado precisam importar. Que sejamos mais futebol poesia do que prosa, que sejamos mais “o moleque e a bola, a bola e o moleque”.

Seja um dosa parte desse time!APOIAR AGORA

sábado, 31 de maio de 2014

O quadrado mágico do Brasil de 82


era a garça enamorada pelo ritmo
calculando seu bigode
virou pássaro mineiro, girassol italiano, bússola de São Paulo
ave, Cerezo!

era a taça colossal, verso de Quintana com vinho italiano
o anjo vermelho o colocou bailando no Beira-Rio
e tecendo espantos em Roma
ave, Falcão!

era o artista 10, Oxalá branco
quando passava,tabelava,driblava e corria rente ao gol
seu gol era o perfume do maracanã
ave, Zico!

era o poeta politizado da bola
quando erguia a cabeça do país
e pensava o jogo no meio-campo
musicando o calcanhar e democratizando o gol canarinho
ave. Sócrates!

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

ANGELITA

                                                                  ( para a mãe do meu filho )
Tatuar o corpo de ANGELITA
Nas escrituras da vida
É a grande obra do poeta JOSÉ TERRA

Apresentar teu rosto ao sol e à chuva
É amar incondicionalmente a criança e o idoso.
Maravilhar as tuas mãos
É unir todo homem e toda mulher.
Pousar-te no peito
É criar a música maior dos espíritos.
Creio que dormir entre teus seios
Tem a magnitude do vinho de DEUS.
Não existe diferença entre estar nas tuas coxas
E comer o pão e o peixe do dia.
Sou transcendental : admiro e amo tua bunda.
Inscrever o amor-paixão nas tuas costas
É saber a essência das coisas eternas

domingo, 2 de setembro de 2012

a gata e o gato


Vez por outra
Minha irmã acende o cigarro e a vida
Põe batom carmim - o poema tango!-
E o vestido da noite de Paris
Fica felina, felina
O felino para conquistar minha irmã
Tem que ter o coração errante de Poeta

Cantiga ao redor do teu seio, de Juareiz Correya


Teu seio cheio
assim tocá-lo
nuvem de dedos
a anestesiá-los

Teu seio rubro
hábil, manoplá-lo:
ânsia de gestos
a amamentá-lo

Teu seio amplo
em dádiva tê-lo
-cálice do corpo
na boca inteiro

Teu seio doce
-erógeno fruto
pulsátil, bebê-lo
com milhões de zelo


Juareiz Correya é poeta e editor. Nasceu em Palmares-Pe no dia 19 de setembro de 1951.Tem vários livros de poesia publicado, entre eles "Americanto Amar América (1975/1982/1993)", " Coração Portátil(1984/1999) e " Poesia do Mesmo Sangue ( 1997)".Tem outros livros de poesia e de contos inéditos.Poemas puplicados em antologias paulistanas, pernambucanas, e em revistas e jornais brasileiros.Organizou e publicou as antologias "Poetas dos Palmares(1973/1987/2002)" e " Poesia Viva do Recife(1996)".Organizou puplicações sobre Hermilo Borba Filho, Ascenso Ferreira e Miguel Arraes.
Dirige, no Recife, a Panamérica Nordestal Editora e Produções Culturais.Publica na internet estes blogs:
" Jornal do Juareiz", "Letras & Leituras ", " Poesia Viva da Cidade " e " Americanto Amar América".

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Novos comentários sobre o blog de José Terra

"  Querido José Terra, adorei seu blog.
     Você é muito especial e inspirador
                           sensível e dedicado.

                              Leocádia Karoliny


 " Gostei do blog, Zé.
    Muito bom.

                             Mariza Pontes


" Grande amigo e escritor
   Deus te proteja sempre, viu!

                               
                           Gleiques Zalan
 

O VENTO, de JIVAGO PARA LARA

Estou no fim e estás viva
E o vento, com gemidos e prantos
Faz oscilar o bosque a "casa de campo".
E não por própia conta cada pinheiro
As todas as árvores untas
Em sua extensão sem fim
Como mastreação de veleiros
Na superfície da Baía.
E não por arrogância
Ou por furor vão,
Mas para encontrar na angústia as palavras
De uma canção de ninar para ti.


Boris Pasternak nasceu em Moscou, 10 de fevereiro de 1890.Foi um poeta e romancista russo.
Foi-lhe atribuído o nobel de literaturaa de 1958, mas ele não foi autorizado a recebê-lo por razões políticas.
Na Rússia, é mais conhecido como poeta do que romancista, em virtude do livro Dr.Jivago não ter feito sucesso na antiga União Soviética por motivos políticos.É interessante observar , no entanto, que o personagem principal, homônimo ao livro, é justamente, um poeta que tem problemas com as autoridades soviéticas, embora simpatizante da causa dos deserdados.O Dr. Jivago, é possível afirmar, é um alter-ego do poeta Pasternak.




















































sexta-feira, 3 de agosto de 2012

impressão de agosto

Chove em teu corpo
Teu rosto aparece no poema do inverno
Degustando vinho italiano e queijo francês

O orvalho prepara a grande festa na casa do blues
E anuncia o homem, a mulher, a fé, as estrelas

Nossa noite irá refletir
O pão significativo
A vida dilacerada
E a poesia possível

Amor, o que mais encanta teu reinado de mulher do inverno,
a lua azul ou meu coração de amante ?

-Paixão do meu canto de mulher,
A lua azul é meu calmante
E teu coração de amante é minha melhor proposta de amor

Chove em meu corpo
Inauguro a minha única revolução :
        AMAR TUA LUZ

domingo, 20 de maio de 2012

POEMINHA PARA VOCÊ

Ela é espírito
Vestido azul-turquesa
E será destino
No sonho de Iemanjá
Ela é fé
Perfume de mãe
Casamento de cristais
Desenho de maça
E será vitória
Na casa do Nordeste
E será sonho
No carnaval do sertão
Ela é emoção
Música da lua
Ela é razão
Medalha dos anjos
E será verdade
Na ceia do sol
E será perfeição
Na biblioteca de Deus
Ela é sangue
Relva de Deus
Evangelho pernambucano
Mel campesino
E será alma
No romance do Poeta

                                                             Poema de José Terra / Música de Lucas Callado

(Esta canção foi baseada nos poemas "Mulher-Terra" e "Mulher-Água",de José Terra )

domingo, 6 de maio de 2012

MULHER-TERRA

                                                                                           Para Solange Crasto, minha Mãe

Ela é sangue
Relva de Deus, evangelho pernambucano
E será alma
Na linha do tempo
E no romance do Poeta

Ela é caridade
Mel campesino, elegante latina
E será sonho
Na passarela olímpica
E no carnaval do sertão

Ela é razão
Arquitetura de Maria, medalha dos anjos
E será verdade
Na ceia do sol
E no topázio do humilde

Meu poema e meu pão
Eternizam a terra do amor

MULHER-ÁGUA

                                                                                   Para Dona Carminha, minha Avó.

Ela é espírito
Vestido azul, casamento de cristais
E será destino
Na cidade da palavra
E no sonho de Iemanjá

Ela é fé
Perfume de mãe, desenho de maça
E será vitória
Na casa do Nordeste
E no vinho do crepúsculo

Ela é emoção
Música da lua, sensibilidade do mar
E será perfeição
Na biblioteca de Deus
E no diamante do trabalhador

Meu poema e meu peixe
Eternizam a água do amor

terça-feira, 20 de março de 2012

PRIMEIRO LIRISMO

Nas lutas (ao léu) por terras
Comendo o meu sol, a mulher-fogo se abre em luz!!!

Onde estão os olhos do povo ?

Esqueceremos o auge do vermelho,
Lutas populares, PT, PMDB,PFL,PSDB

Se beijarmos o primeiro beijo do Amor

NOBREZA

Amada, ainda não basta a mim e ao mundo
Revelar teu corpo e com ele fazer mapas
e Criar tua alma e com ela fazer mágicas

Depois da perfeição do teu espírito e da tua matéria
É mais do que necessário deixar o Rei nu
E transcender
Com mãos de Lavrador e coração de Poeta
As pedras e os pergaminhos do NOVO SÉCULO
Para o jovem Poeta cantar outro corpo e outra alma

ARTIGO FINAL, De Thiago de Mello

Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio
e a sua morada seré sempre
o coração do homem.
                                                           ( Fragmento do poema " Os estatutos do homem", 1977)

Thiago de Mello nasceu na Barreirinha, 30 de março de 1921.Natural do Estado do Amazonas, é um dos poetas mais influentes e respeitados no país, reconhecido como um ícone da literatura nacional.
Entre seus livros de peoesia, destacam-se "Faz escuro, mas eu canto"(1966), "Poesia comprometida com a minha e a tua vida"(1975) e " Os estatutos do homem"(1977).
Entre seus livros de prosa, destacam-se "Amazonas, pátria da água"(1991)
e " Borges na luz de Borges"(1996),

                                                       

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

ABRAÇA-ME, de Joumana Haddad

Abraça-me
para que se eu perder a minha estrela
sejas tu o pastor
para que se as minhas raízes mergulharem fundo
encontrem o teu abismo
para que se eu desperdiçar a minha vida
de ti consigo vidas e países.


Joumana Hadad nasceu em Beirute, no Líbano, no dia 6 de dezembro de 1970.
É poetisa, tradutora e jornalista.
Tem 5 livros de poesia publicados.
O tempo de um sonho(1995), Duas mãos verso o abismo(2000),
Convite para um jantar secreto(1998), não pequei o bastante(2004)
e O regresso de Lilith(2004).

domingo, 11 de dezembro de 2011

AMOR CASEIRO

Nêga, modelas teu sentimento
deixas teu rosal e teu poema para a nova estação
assimilas o segredo do vinho
esmeras a Amazônia com teu olho verde
e trocas tua carreira de modelo pelo suor nordestino

Nêga, se voltares a ser as letras da minha estrela
na festa dos signos
iluminarei a noite dos amantes
e comerei e beberei os sonetos da tua lua

Após o mais que perfeito
iremos à  roça
eu ressuscitarei a minha empregada Ana Alegria
e tu ressuscitarás o teu servente João-do-bem

CONCERTO DE DEZEMBRO

Abrindo as cortinas azuis do verão lírico do Recife

Edifica-se o Prefeito vermelho
com suas palavras lógicas de lavanda

A cozinheira Maria José
alimenta o povo de Boa Viagem
com feijão e arroz de grinalda

O livreiro Walfredo
embriaga cervejas e cortesãs
por ter vendido todos os versos
do Bandeira e do Cabral

O músico Paulo Diniz
é brilhatemente dos índios e dos negros
no marco do meio-dia

O soneto de Jaci Bezerra
é inaugurado e imortalizado com acácia

O poeta Juareiz Correya
bebe vinho louvando o sexo da sua musa América

Comemora-se a luz de Cìntya Jíminni
com seu amor espiritual
alimentando a vida com namorados da poesia

No centro da cidade
e além da vida dos namorados AMOR e POESIA
o velho mestre obra a sua arte
(sem festa e sem público)
cravado na sua testa armorial
há o maior nome da existência:
          DEUS

sábado, 5 de novembro de 2011

MINHA NAMORADA

Meu Deus
será minha namorada emprestando luz à solidão?

É minha namorada nas raízes do Brasil
com a cruz de Pernambuco?

Será minha namorada
ensinando vinho e verso no dia da paz?

É minha namorada com a rosa dos amantes
e o perfume das alquimias?

Será minha namorada
pregando a poesia, o poema e o amor
com carmins e jasmins?

É minha namorada lotando de seda os peões?

Amo a minha namorada clássica
ela pula comigo a catraca do ônibus
come lanche de moedas
vai ao cinema dos sem-terra e sem-teto
e se faz rainha na chincha

POEMA DO ANJO

No corpo de Angelita
o mar canta a barcarola azul
o peixe luminoso reluz o cristal
o sol se faz arco-íris
e os barcos brincam com Deus

No mais íntimo do corpo de Angelita
a cidade-luz se encanta
o Recife é o pão da aurora
a casa de chá espera a poesia

e eu, grande artista, amante de todas as horas,
amanheço no seu ponto G

                                
                                   

UM POETA FUTURO, de Endre Ady

Quando acabar nos jardins húngaros
a raça humana: a rosa- um santo
moço tristonho há de ficar
e ele terá razões de pranto.
Invejo-te, moço futuro,
que cantarás tua cantiga
quando não mais houver quem ouça
ou sofra a nossa Praga antiga.

Endre Ady nasceu no dia 22 de novembro de 1877, foi um poeta húngaro que causou controvérsia na época em que escreveu poemas sobre uma mistura de erotismo, profecia, teologia calvinista, patriotismo desesperado, política radical etc.Foi o grande pioneiro da literatura húngara moderna,e apesar de estar vinculado ao simbolismo, é considerado o introdutor das vanguardas na Hungria.